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Razões que a razão desconhece - 1

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.05.10

 

Waterworld é um dos meus filmes preferidos. Recebeu nos States vários prémios Razzie e tudo, para pior realizador (Kevin Reynolds), piores produtores (Kevin Costner e mais dois), piores actores (de novo Kevin Costner e Dennis Hopper). Sim, aqui surge o terceiro Kevin Costner a navegar...

 

O que é que eu vi neste filme que os americanos em geral não viram? Talvez isso fique mais claro quando referir o que me fascinou no filme:

- Há uma utopia sempre presente: chegar a terrra firme. Mesmo não sabendo se ainda existe, nalgum lugar do planeta (e aqui lembro-me de Frank Capra, Lost Horizons).

- Há mutantes, na adaptação à vida aquática adquirem qualidades "anfíbias" digamos assim, Kevin Costner é um deles. Esta ideia é fascinante, pelo menos para mim.

- Há uma divisão clara entre os terrestres e os mutantes, tal como hoje vemos divisões entre diversas culturas, divergências de percepção e de consciência. E, no entanto, essas divergências são ultrapassadas na comunicação, quando passam da simples motivação de sobrevivência para a empatia, a cumplicidade.

- A resposta da localização da terra firme está gravada nas costas de uma miúda. Que não é uma miúda qualquer, é inteligente, corajosa, e fala muito. Fala demais, segundo o nosso herói mutante.

- Todos os vilões são excessivos e convincentes, num prolongamento natural dos gangs urbanos, piratas sem lei, consumidores de combustível para as suas deslocações de vândalos destrutivos. Aqui não percebo porque é que os americanos não aderiram ao filme. Há piruetas de motas aquáticas, em rampas espectaculares, as construções aquáticas são alíás muito bem concebidas. Até para mim, que não aprecio as proezas dos duplos, fiquei presa àquelas cenas...

 

O filme projecta-nos no futuro, e eu sempre gostei de filmes assim. Não os classifico na ficção científica, mas numa simples projecção temporal. O que é que torna estes filmes tão fascinantes? E estou a pensar no 1984, Blade Runner, no Postman, no War Inc., ... Porque é uma forma muito interessante de nos revelar os tempos actuais, para que vida e mundo estamos a caminhar actualmente, como uma corrente de um rio onde navegamos sem ter disso consciência... É esse o seu fascínio para mim.

Por isso procuro sempre o verosímil nestes filmes. Se não forem verosímeis, credíveis, não me interessam para nada. Os meus neurónios inquietos já produziram fantasias q.b. e já as procuraram no tempo da idade impressionável, agora querem ver por detrás da realidade, querem perceber. E claro que há coisas que não nos são acessíveis pelos neurónios. As tais razões que a razão desconhece. Talvez subterrâneas ou subaquáticas, ou ligadas a uma consciência colectiva que se perpetua ao longo de gerações, e de que não nos apercebemos.

 

O que é que Waterworld nos revela? Uma possibilidade, um resultado possível. A destruição do mundo como o conhecemos, da civilização como a conhecemos, do cenário, da natureza, do habitat natural de um terrestre. Há um pormenor muito significativo: nem tudo é destruído, a natureza humana mantém-se no essencial, no valor que dá à vida apesar de vermos como está desvalorizada e descaracterizada, aqui tudo se compra e tudo se vende, o nosso mutante troca a rapariga por um bocado de papel (uma raridade, uma pista possível). O perigo espreita a toda a hora, torna-os vigilantes e sempre inseguros. No mar não há fronteiras, mas também não há um lugar seguro ou tranquilo.

Não vou desvendar o final, para não estragar o filme a quem não o viu, embora a tentação seja enorme! Mas como me surpreendeu este final, favoravelmente diga-se de passagem, mais uma razão para não o contar aqui.

 

Não me admirava nada que este filme, tão mal-amado pelos americanos, se venha a tornar um filme de culto. Dizer que Kevin Costner e Dennis Hopper representaram mal o seu papel é não perceber nada das suas personagens e de como lhes iriam vestir a pele. O que explica certas aberrações e mediocridades que vemos aplaudidas pelo sistema, incluindo nos Óscares. Independentemente da mensagem ser válida ou não, estamos a falar de cinema? Desconfio que a maioria de produtos vendidos como cinema americano não são mais do que pacotes plastificados montados a partir das eternas receitas pré-formatadas, em que o bom gosto se ausentou por tempo indeterminado. Os clichés já entediam o olhar e a inteligência massacrada, por demais previsíveis, mas é essa a marca que vende, ou que nos é impingida.

 

Este rio continua a navegar, atento às correntes e aos remoinhos, mas mais preguiçoso do que é costume... Vou parando nas suas margens e essas paragens estão a tornar-se mais prolongadas, é só isso...

 

 

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